Monday, 22 September 2025
OBRAS LITERÁRIAS e SEUS AUTORES - Estante do Justo: "Um Copo de Cólera", de Raduan Nassar.
RADUAN NASSAR (Pindorama, SP, 1935) publicou poucos livros, mas disse muito no que escreveu. “UM COPO DE CÓLERA” é uma novela sofisticada formalmente e mais ainda por veicular ideias eletrizantes, pouco palatáveis para parte dos intelectuais. Um testemunho da coragem do autor. Publicada pela primeira vez em 1978, continua atual. Nasceu para obra-prima.
O enredo condensa-se para dar espaço ao que Raduan Nassar deseja e parece precisar dizer. Tudo se aninha e explode no âmbito da relação de um casal. Ela é uma jornalista aparentemente habituada a se alimentar de estereótipos prescritos em cartilhas obrigatórias entre os que se lançam como defensores da justiça e da correção moral. Ele, entre humilhação e revolta, denuncia sua amante e através dela, uma parcela importante da sociedade. A mulher faz-se arauto de discursos antifascistas, contorce-se num progressismo do qual ele duvida. Ele, que tudo narra (exceto no último capítulo), vê estampadas no avesso das posições de sua parceira expressões de corrupção, desveláveis apesar da camuflagem. O disfarce que ela usa serviria para esconder a natureza oposta do que está embutido no que declara quanto a quem é e na falta de legitimidade do que faz. O jogo sexual entre eles é tenso e dissolve trocas de afetos positivos e compartilhamentos intelectuais que os pudesse unir como um casal. A cólera nele transborda. Dá os primeiros sinais quando o homem vê uma cerca viva rompida por formigas. Ele se enfurece num ritmo crescente que surpreende o leitor. Logo fica claro que sua raiva não se restringe às falácias sustentadas pela mulher e com as quais, de soslaio, afronta-o. Desdobra-se no modo dele entender o funcionamento do mundo em que vive e por ter que transitar pelas falas vazias e perversas que preenchem os espaços além de suas cercas. Perversas devido à falsidade e ao alimentarem o mal quando prometem combatê-lo.
Distancia-se a possibilidade dele amar aquela com quem até pode gozar. Refugia-se em si mesmo com a cólera enterrada no peito. Todavia, não há o que o impeça de extravasá-la em alguns momentos. A indignação torna-se tóxica e o turbilhona. Em contraposição a isto tudo, ele tem boas lembranças da simplicidade de sua família de origem, que do trabalho extraía o sustento para o corpo e no compromisso com a honestidade despretensiosa a preservação da integridade do espírito.
O protagonista não está à vontade na vida. Enxerga-se com imprecisão, mas não se confunde sobre o que despreza. Sente-se uma espécie de anarquista, produto da desilusão quanto às boas intenções dos que lideram governos e dos que são instrumentos de propaganda do que é nefasto. Repugna-lhe o oportunismo e a incapacidade de produzir mudança, assim como a alienação das pessoas que se deixam transformar em massa de manobra. Sua cólera, que enche muitos copos, defende-o de ser arrastado para esta condição. E ele não pretende se desculpar por ela. Recusa a mentira que a tudo mascara.
A brutalidade, a insensatez e a malignidade de parte das ações humanas não podem verdadeiramente ser mitigadas pelas boas palavras. Neste contexto as palavras perdem seu bom peso, evaporam-se ou restam como entulho. Mergulhado na ira o personagem tenta resgatá-las, fazendo com que revivam com poder de significação responsável, fiéis à busca da verdade.
Desqualifica a mulher com quem faz sexo chamando-a de pilantra e dá vazão a seu protesto contra os que considera calhordas do mundo. Nisto, pressente e depois experimenta o ataque a ele, que vem acondicionado no xingamento “fascistão”. Mas ele vê as manifestações fascistas nos que alegam estar engajados em lutas contra o fascismo. Diz frases provocativas como “o povo nunca chegará ao poder”, “o povo é só e será sempre a massa dos governados”, “vá em frente pilantra – com o povo na boca”.
Um texto fortíssimo, um libelo contra a permissividade moral e negligência ética.
Título da Obra: UM COPO DE CÓLERA
Autor: RADUAN NASSAR
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
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