Thursday, 25 September 2025
OBRAS LITERÁRIAS e SEUS AUTORES - Estante do Justo: "DOROTEIA", de Nelson Rodrigues
Estante do Justo
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Luis Justo19/09/2025
DOROTEIA
Nelson Rodrigues (Recife, 1912 – Rio de Janeiro, 1980) foi um dramaturgo revolucionário, ainda mais do que como romancista e cronista. Usou diferentes linguagens para construir suas peças. Qualificou DOROTEIA como uma farsa. Todavia, é uma obra híbrida, combina elementos de diferentes movimentos estéticos como surrealismo, expressionismo e algo do “teatro do absurdo”. Parece inspirada na mitologia grega, com personagens que lembram as Moiras (que teciam os destinos dos humanos), assim como guarda parentesco com Macbeth de Shakespeare e suas bruxas (empenhadas em desfechos geralmente ruinosos para outros personagens). Foi encenada pela primeira vez em 1950 e teve Eleonor Bruno no papel de Doroteia.
Nesta peça Nelson Rodrigues põe em cena somente mulheres, reservando aos homens o lugar de ausências fortes. Numa casa vivem três primas, d. Flávia, Maura e Carmelita, junto com filha de uma delas, Maria das Dores. A última está às vésperas de ser casada. Elas recebem a inesperada visita da personagem título, Doroteia, que faz contraponto ao que são as moradoras do que lembra um mausoléu. As três mais velhas são viúvas em luto eterno, servas da morte, residindo num lar que não tem quartos, somente salas. Das Dores, filha de d. Flávia, nasceu morta no quinto mês de gestação e, sem que isto significasse um fim, continuou crescendo para cumprir o destino das mulheres da família (sofrer a náusea da noite de núpcias ao invés de prazer, o que equivale a um passaporte para morrer dignamente). O clã é chefiado por d. Flávia, dotada de poderes mágicos, suas primas são coadjuvantes na árida missão de preservar a castidade. Elas não dormem para não sonhar e com isto arriscar a perda de controle sobre sua missão. Seus passados dissolvem-se quase completamente no único propósito que têm. Usam máscaras e leques para cobrir as faces e prevenir a exibição de qualquer elemento humano que expresse desejo, talvez que revele resquícios de ânsia por sexo cru. Tais disfarces atendem à necessidade de ocultação de sua real feiura, mais insuportável do que as deformidades das máscaras e mesmo as anatômicas. Doroteia não usa nenhuma máscara, é linda, tem um passado vigoroso de volúpia e gozo de seu belo corpo, que uniu em celebração do prazer carnal aos corpos de muitos homens. Usa roupa vermelha, cor associada às prostitutas na primeira metade do século XX. As donas da casa por ou para serem castas não enxergam homens. Doroteia sempre viu todos e quis muitos. Todavia, não escapando à sina dos seus, decidiu pedir abrigo às primas e tornar-se alguém como elas, depois da morte de seu filho. Em razão da dor de sua perda e da culpa que sente, deseja livrar-se de tudo o que a sexualiza. Para isto é exigido que se transforme numa mulher também desprovida de qualquer sinal de beleza e atratividade libidinosa (no que contaria com o auxílio misterioso de um vizinho, Nepomuceno). Quando a virgem Das Dores recebe o noivo, Eusébio, ele vem na forma de um par de botas desabotoadas, trazidas pela sogra, d. Assunta da Abadia. O par de calçados vem carregado de energia erótica, que abala a todas, exceto Doroteia. A presença desta parenta e as reações indesejáveis de Das Dores ao etéreo noivo abalam o microcosmo das viúvas, que vai perdendo a ordem de sustentação. A forasteira divide o mesmo nome com outra mulher da família, que teria se afogado para eliminar o pecado. Possivelmente a dupla de Doroteias, transgressoras que se sacrificam para saneamento dos estigmas malignos, representem promessas de uma redenção mais radical.
O sexo é rejeitado, mas também o amor, dele derivado ou não. Ao ler ou assistir à peça é difícil afirmar com propriedade algo sobre a real origem daquele tipo de recusa ao corpo e ao mundo. Fala-se numa praga que assolou a família depois do casamento indesejado de uma ancestral. O que parece remeter a uma justificativa lendária, um disfarce para a autêntica aversão. É possível cogitar, ultrapassando a obscuridade das causas, que tamanha precariedade de capacidades no campo amoroso/sensual/sexual deforme as vidas das personagens, a ponto de convertê-las em bruxas horrendas receptivas somente à miséria do viver. Um terror que traduzem através de sua concepção de corpo e de seus apetites e exclui todo o restante, que obriga a uma espécie de cegueira, especialmente para os homens.
Muitos podem ser os recortes de entendimento. Talvez o mais saliente seja o pavor diante da força e inevitabilidade do desejo sexual, da submissão a ele. Também importa o ônus acarretado por regras de pertencimento a um grupo familiar (valeria também para outros coletivos). Para se incorporar a um rebanho pode ser necessária a mutilação de parte significativa das singularidades habitadas pelo desejo em sua vertente amorosa. A beleza física e a feminilidade são tomadas como ameaças à retidão moral e ao mesmo tempo fonte da insalubre inveja. Seriam atributos perigosos a arrastar os indivíduos para a fruição da sensualidade que a vida insiste em ofertar. O “nonsense” dá o tom à peça e serve de instrumento para iluminar os temores e as soluções encontradas por cada personagem. Para Nelson Rodrigues, considerando-se o conjunto de sua obra, o absurdo nas relações humanas e nas batalhas intrapessoais é mais regra do que exceção, desvelá-lo é uma forma de realismo.
Título da Obra: DOROTEIA
Autor: NELSON RODRIGUES
Editora: NOVA FRONTEIRA
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