Thursday, 25 September 2025

OBRAS LITERÁRIAS e Seus Autores, na Estante do Justo O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, de EMILY BRONTË, por Luis Justo em 24/09/2025

Estante do Justo O MORRO DOS VENTOS UIVANTES Por Luis Justo em 24/09/2025 Falar de paixões e das ideias construídas em torno da morte são desafios. Construir um romance em que isto seja pregnante do início ao fim e interessar o leitor em todos os momentos atesta a qualidade de um escritor. O romance “O MORRO DOS VENTOS UIVANTES” de EMILY BRONTË (Inglaterra, 1818-1848) pode ser visto por esta lente. Paixões são afetos intensos, muitas vezes violentos e indutores de comportamentos extremos, que jogam a razão para a periferia do funcionamento humano. Em alguns momentos da vida, da História e em determinados contextos culturais amores e paixões se superpõem e são diferentes das motivações socialmente determinadas para o enlaçamento entre pessoas. Não era incomum no século XIX, e talvez em muitos outros momentos, a associação das paixões e dos amores trágicos à morte. Esta pode ser vista, em parte, como consequência de impossibilidades radicais ou, de modo contrário, como circunstância de cristalização de um vínculo que resiste às vicissitudes da realidade objetiva. Pensemos na Rainha Vitória e o Príncipe Albert, exemplo em que a viuvez dela determinou extensamente seu modo de viver, com uma imensidão de proibições e a observação de pétrea severidade afetiva. Embora a rainha tenha vivido bem mais do que a escritora, elas nasceram na mesma época, com diferença de um ano. Cresceram em condições bastante distintas, mas marcadas por certos traços culturais que podem ter permeado os universos de ambas. No romance de Emily Brontë a estória se passa num espaço confinado a duas casas dentro de uma mesma propriedade rural. Há poucos personagens e raríssimos eventos festivos ou mesmo de rituais familiares, o que certamente não aconteceu com a rainha Vitória. Todavia, o que importava mais e dignificava indivíduos talvez estivesse incrustado em aspectos muito próprios da moral da época. Certos valores imperavam e ofuscavam outros, definiam destinos. Parte deles tinha relação com o conhecimento da origem das pessoas e de seu lugar no tecido social, assim como o que era aceitável sentir, dizer e fazer valer nas ações. Afinidades e ódios brotavam nestes campos. Em “O Morro dos Ventos Uivantes” o enredo evolui dentro de um grupo fechado de pessoas que parecem ter horizontes pouco amplos. Suas vidas são norteadas por prerrogativas estreitas. Uma criança estranha chamada Heathcliff é trazida de uma viagem feita pelo patriarca e cresce junto a seus filhos (um casal), sofrendo discriminação por ser muito diferente das outras crianças do entorno, da aparência ao comportamento defensivo/agressivo. Ainda assim, ele se torna o preferido do chefe da casa e conquista a amizade da irmã adotiva, Catherine. Desenvolvem um tipo de identificação mútua e, posteriormente, uma paixão que consumiria a quase totalidade de suas vidas. O restante da trama deriva disto e chega ao leitor principalmente através do que narra Ellen Dean, governanta que transita por todos os núcleos formados na família e de idade próxima às de Catherine e Heathcliff, junto aos quais cresceu. Ela faz um relato ao sr. Lockwood, locatário de uma das casas dos domínios onde tudo se passa. Em meio às turbulências passionais e modelos estratificados de relações interpessoais, é manifestada a crueldade dos personagens. Heathcliff é seu maior estandarte, mas em variadas intensidades a crueldade está presente em múltiplas situações. Gêmea ativa da maldade que mora em cada ser, ela se mostra através das atitudes que podem confundir o que é voluntário com o involuntário, faz ventar e uivar o mundo em que todos convivem. Maldade e crueldade são produtos humanos. Contudo, desde que o homem se civilizou tem havido real empenho em controlá-las ou circunscrevê-las a contextos em que possam ser permitidas. Dificilmente são encaradas como componentes naturais do comportamento. Não havendo o que as limite ou encarcere elas ceifam as boas possibilidades da aventura humana. Na literatura podem dar contornos góticos às narrativas. Aproximam a morte daquilo que se vive, criam-lhe faces fantasmagóricas e através deste recurso condicionam os desfechos, realizados ou interpretados. Talvez verdadeiramente mais assombroso seja o potencial destrutivo dos atos humanos, algo que sobrepuja as intenções (nem sempre tão boas quanto são anunciadas) e que tem algum parentesco com aquilo que deve permanecer enterrado, calado ou desprezado nas almas. Mas as almas precisam de alguma liberdade para serem mais justas e dóceis. Como na natureza, as plantas que crescem em urzais. A autora põe em evidência aspectos do comportamento que normalmente são camuflados ou subdimensionados quando muito se espera na lavra dos bons sentimentos e da cordialidade. Desperta o pensamento de que seria desejável que o amor fosse mais fiel a si mesmo, mais forte do que a passionalidade e implicasse melhores relações entre pessoas. Todavia Emily Brontë aponta para a inevitabilidade do contrário, ainda que abra terrenos para o amor que une e aquece, em modalidades tímidas, miniaturizadas. Uma obra densa. O único romance escrito pela autora e que se tornou um clássico da literatura inglesa. Título da Obra O MORRO DOS VENTOS UIVANTES Autora: EMILY BRONTË Tradutora: JULIA ROMEU Editora: PENGUIN/COMPANHIA DAS LETRAS

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