"Eu amo o Serviço Nacional de Saúde"
"Eu amo o Serviço Nacional de Saúde. Sem ele, não sei se seria a pessoa que sou. Mais ainda: não sei se teria as pessoas da minha vida ainda na minha vida.
Quem diz que o SNS já não faz sentido nunca dormiu numa cadeira de hospital às três da manhã, com o corpo torcido, à espera de que alguém diga qualquer coisa que não seja definitiva. Eu vivi em hospitais. Vi o meu pai morrer ali. Depois vivi lá com o meu filho. Vi uma equipa que não aparece em conferências de imprensa, que não escreve livros de liderança, que não faz posts inspiracionais. Vi pessoas que salvam crianças enquanto o país discute se compensa manter um serviço público. Sou apaixonado por essa gente: pessoas que estão a ser empurradas para o esgotamento para que alguém possa dizer que isto “já não funciona” e que a privatização é inevitável.
Inevitabilidade é uma palavra muito usada quando há milhões em jogo.
Sinto que o ataque ao SNS é um plano paciente: deixar degradar, sufocar, desmoralizar, apontar o dedo. Dizer: vejam, falha. Virão os salvadores privados vender saúde como se vende um produto premium. Quem pode paga. Quem não pode aprende a morrer mais cedo.
Nas próximas semanas, com o pico dos vírus, suspeito que vai haver uma infestação de notícias críticas. Suspeito que vai haver especialistas de estúdio, comentadores que nunca tiveram de escolher entre pagar uma consulta privada ou comprar comida. Dirão que o SNS é insustentável, ultrapassado, ideológico, que já não faz sentido. Não vão nessas cantigas. São cantigas de embalar para adultos cansados de pensar.
O SNS faz sentido, é das poucas coisas nesta porra toda que fazem sentido. Um país que abdica do seu sistema público de saúde abdica da ideia de comunidade. Passa a ser apenas um conjunto de indivíduos a competir por sobrevivência, como animais na selva.
Eu amo o SNS. Gostava tanto que todos amássemos o SNS.
Lutem pelo SNS. Amem o SNS. Façam campanhas, aplaudam, criem hashtags, movimentos, façam barulho para dizer bem, não para dizer mal. Defendam-no com a mesma ferocidade com que defenderiam um pai, um filho, um corpo querido estendido numa cama branca. Um dia pode mesmo ser mesmo isso o que ele pode fazer por vocês.

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