Thursday, 23 October 2025
LITERATURA: Na ESTANTE DO JUSTO: "Saber Envelhecer", de Cícero
SABER ENVELHECER
Luis Justo20/10/2025ResenhaNavegação de posts
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SABER ENVELHECER
Marco Túlio Cícero (Arpino, nas cercanias de Roma, 106 a.C – Fórmias, 43 a.C) foi orador, político, filósofo e escritor. Um defensor da busca da virtude e crítico da corrupção, tanto em público quanto privadamente. A mais famosa entre as obras que nos chegaram é “As Catilinárias”. Teve considerável influência na formação do pensamento ocidental. Os temas que lhe foram caros e suas opiniões sobre eles atravessaram os séculos. “SABER ENVELHECER” é uma combinação de discurso e ensaio filosófico.
O fio condutor do texto é uma reflexão sobre o envelhecimento. Sua prerrogativa é de que a velhice não deve ser encarada como o pior período da vida e sim como uma espécie de epílogo em que há muito o que se louvar e o que se fazer. Cícero dá menos importância às perdas da senescência do que ao aprendizado adquirido e àquilo que é realizável por quem é mais experiente. Na leitura de “SABER ENVELHECER” alguns acharão o autor otimista demais quanto às condições de vida dos mais velhos, outros enxergarão a prioridade que ele dá a valores perenes e à responsabilidade pelas próprias ações que cada indivíduo deve ter, atravessando todas as faixas etárias. Há diferentes ideias a serem destacadas.
A concepção de “desonra do poder” é um dos pontos relevantes em seu pensamento, universaliza-se. Para ele, uma vez ocupando uma posição de poder, especialmente no que diz respeito a cargos públicos que impactam a vida de tantos outros, não se pode tomar decisões injustas ou cometer erros graves em função das paixões que subjugam o espírito. Exemplo é a volúpia, o desejo sexual descontrolado. Haveria o risco de se cometer leviandades e males graves para levar a cabo tentações desta esfera. Em essência, isto poderia ser estendido ao que concerne a variados apetites e interesses particulares por parte daqueles que detêm cargos de chefia e comando e que têm obrigações precedentes ao que é de conveniência pessoal. Para Cícero, a velhice diminui o risco do cegamento acarretado por paixões, incluindo as de cunho sexual. Com este risco diminuído e somando-se o maior equilíbrio nas escolhas e na percepção do mundo, o idoso fica propenso a exercer mais apropriadamente as funções dos postos públicos e a ser mais sereno quanto ao seu futuro individual. Ele propõe que há um bom exercício da volúpia e não necessariamente a abdicação a ela, algo equivalente à parcimônia e sobriedade. Lembra do útil balanço a ser feito entre o que se ganha e o que se perde: “Ao renunciarmos aos banquetes, às mesas que desabam sob os pratos e as taças inumeráveis, renunciamos ao mesmo tempo à embriaguez, à indigestão e à insônia.”
Com Cícero, para envelhecer bem é preciso estar atento às habilidades do corpo e do espírito, desenvolvendo-as através do que lhes for favorável, em todas as fases da vida. Nisto também importam os esforços para a contenção, que implicariam valorização e proteção das capacidades de cada um. Incluem-se aqui o comer e beber bem, fazer exercícios e saber repousar para recompor as forças, sem agir para arruiná-las com os excessos.
Fundamental apreciar e aplicar com adequação as competências próprias de cada estágio da vida, distinguindo-as, aceitando as transformações determinadas pelo tempo sem tomá-las como ruína inescapável. Se há perdas quanto aos atributos físicos, pode haver ganhos relativos ao intelecto, à sofisticação das ideias e temperança afetiva. Enxergar isto tudo parece uma conquista empreendida desde a juventude.
São ingênuas suas concepções sobre a deterioração da memória que pode acometer os mais velhos. Deve-se levar em conta que não havia conhecimento científico sobre este tipo de perda, como acontece nas demências. Também são hoje questionáveis, talvez frágeis, alguns dos valores que ele sustenta. É preciso ponderar a respeito de sua estreita relação com o contexto histórico em que viveu Cícero e de seu lugar na sociedade. Ainda assim, há aquilo que não é perecível entre as ideias que ele propõe e no que observa sobre o humano.
Falando da morte, presumivelmente próxima (ele está com oitenta e quatro anos), o filósofo propõe que seja vista com serenidade. Revela crença na eternidade da alma e na doutrina que interpreta a morte do corpo como uma forma de libertação. É bastante permeável ao que tinham pregado Pitágoras e Platão, além de outros homens que julgava sábios e se pronunciaram sobre o assunto. Todavia, ele não minimiza a importância da vida terrena em função da sobrevivência da alma e de seu destino futuro. Acha que ela deve ser vivida até o final natural, com o máximo proveito. Vale registrar o comentário do pensador dizendo que se estiver errado quanto à crença sobre a eternidade da alma, tal erro lhe é bem-vindo, pois mesmo sendo um engano, é doce.
Título da Obra: SABER ENVELHECER
Autor: MARCO TÚLIO CÍCERO
Tradutor: PAULO NEVES
Editora: L&PM
Marcus Tullius Cicero (Arpinum, near Rome, 106 B.C.–Formiae, 43 B.C.) was an orator, politician, philosopher, and writer — a defender of the pursuit of virtue and a critic of corruption, both in public and in private life. Among the works that have reached us, the most famous is The Catilinarian Orations. Cicero exerted considerable influence on the formation of Western thought. The themes that moved him and the opinions he held about them have crossed the centuries. On Old Age (De Senectute), known in Portuguese as Saber Envelhecer, is a work that blends the qualities of a speech and a philosophical essay.
The guiding thread of the text is a meditation on aging. Its premise is that old age should not be regarded as the worst period of life, but rather as a kind of epilogue in which much remains to be praised and accomplished. Cicero accords less weight to the losses brought by senescence than to the learning acquired and to what remains achievable by those endowed with experience. In reading On Old Age, some may find the author overly optimistic about the condition of the elderly; others will discern instead his emphasis on perennial values and on the responsibility each individual bears for his own actions, responsibilities that traverse all ages of life.
Among the many ideas that deserve attention, the concept of the “dishonor of power” stands out as one of Cicero’s universal insights. For him, once a person occupies a position of authority—especially one that affects the lives of many—he must not act unjustly or commit grave errors driven by passions that enslave the spirit. A prime example is sensual desire, the uncontrolled appetite of the flesh. Yielding to such temptations, Cicero warns, may lead to recklessness and great harm. In essence, his argument can be extended to all manner of appetites and private interests in those who hold positions of command, whose obligations must precede their personal convenience.
To Cicero, old age lessens the risk of blindness caused by passion, including the erotic kind. With this danger diminished, and with greater equilibrium in judgment and perception, the elderly person becomes better suited to exercise public office and to contemplate the future with serenity. He suggests that pleasure need not be renounced, but moderated — to practice a tempered form of delight rather than to surrender it altogether. He reminds us of the useful balance between what is lost and what is gained:
“When we forgo banquets, tables collapsing under innumerable dishes and cups, we renounce at the same time drunkenness, indigestion, and sleeplessness.”
For Cicero, to grow old well requires attentiveness to the abilities of body and spirit, cultivating them through what is favorable at each stage of life. Equally important are the efforts toward restraint, which preserve and strengthen one’s faculties — eating and drinking well, exercising, resting sufficiently, and avoiding excesses that undermine vitality.
It is essential, he teaches, to appreciate and properly apply the capacities particular to each phase of life, to distinguish them, and to accept the transformations wrought by time without mistaking them for inevitable ruin. If there are losses in physical vigor, there may be gains in intellect, refinement of thought, and emotional temperance. To perceive all this is itself a victory begun in youth.
His ideas about the deterioration of memory in old age may appear naïve to modern readers; scientific understanding of such decline, as in dementia, was of course unknown to him. Likewise, some of the values he upholds may seem questionable or fragile today. Yet they must be considered within the historical context of his life and station. Still, much in his thought remains imperishable—especially his insights into the nature of the human being.
Speaking of death, presumably near (he was eighty-four), Cicero proposes that it be faced with serenity. He affirms his belief in the immortality of the soul and in the doctrine that interprets the death of the body as a form of liberation. His reflections reveal the influence of Pythagoras and Plato, among other sages whom he admired. Yet he does not diminish the worth of earthly life in light of the soul’s eternal fate; rather, he insists that life must be lived fully to its natural end. He even remarks, with gentle irony, that should he be mistaken about the soul’s immortality, such an error would still be welcome—“for even if it is an illusion, it is a sweet one.”
Title: On Old Age (De Senectute)
Author: Marcus Tullius Cicero
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